Jason é professor primário em Accra. Esther trabalha numa empresa de telemóveis, aquela que cobriu toda a cidade com a campanha publicitária de côr encarnada acesa.
Hoje é domingo e , por volta das 14 horas, depois do almoço de kenkey com estufado de peixe, vão passear na areia da praia em frente aos grandes hotéis. A essa hora ainda há pouca gente por aí.
Esther é uma mulher “abençoada”, como diz o Pastor da igreja evangélica que frequenta. Foi ali que conheceu o Jason, que também cantava no côro da igreja. É feliz, escapou à tradição imutável que não dá nenhuma escolha às raparigas. A sua melhor amiga, que ficou a viver na aldeia no norte do país, prometida desde o seu nascimento a um idoso e polígamo amigo do pai, casa-se dali a um mês. Um destino selado.
O trabalho da Esther dá-lhe direito a usar o carro encarnado com o nome da empresa em letras brancas garrafais e a chamadas ilimitadas. Resolve telefonar à amiga. Mas a rede é fraca à beira mar. Não consegue ouvir nada.
Esther e Jason caminham na areia e deixam as ondas desfazer-se aos seus pés. Por volta das 4 e meia , a praia enche-se, tornando-se negra de tanta gente. O domingo é o “dia do Senhor” e é também dia de praia em Accra. A multidão, vestida endomingada, passeia e contempla a imensidão do mar. Pequenos comerciantes de bebidas ou banana-pão frita, famílias completas, crianças com papagaios de plástico esvoaçantes, grupos de jovens com rádios ou telemóveis a todo o volume. Numa zona em que as ondas são menos fortes, um grupo numeroso de gente meio vestida enfrenta a rebentação, grita e diverte-se com a água.
Outros seguem a sua deambulação, afundam os humores e agonias no movimento e no ruído do mar. Avançam na areia, fugindo a um destino selado, explorando outra dimensão, aquela de um domingo na grande praia da capital, brilhante à luz do sol.
Por volta das 18 horas, a noite começa a cair. Jason e Esther retomam o caminho de casa na grande periferia da cidade, no seu carro encarnado flamejante.



4 Comentários
Maio 7, 2009 ás 12:06 pm
Ainda bem que voltou ! adoro lê-la, não tenho blog mas já tive uma experiência de vida africana e aprecio muito a forma como conta aquilo que vê, um olhar crítico mas sem lamechices ! até breve !
Maio 7, 2009 ás 8:29 pm
Até que enfim! Esse passeio parecia não ter fim.
Fizeste-nos falta.
Maio 8, 2009 ás 9:01 am
obrigada ! também começo a ficar com saudades dos meus blogs preferidos quando ando afastada do computador … ( levámos um portátil na viagem mas ficou quase sempre no seu estojo feito em capulana por mim
Maio 14, 2009 ás 3:08 pm
que bonito! que escrita deliciosa…